Patologias empresariais: as empresas na UTI

Vive-se uma era organizacional na medida em que a sociedade é impactada pelo papel desempenhado pelas organizações e as impacta sejam públicas, estatais, privadas, filantrópicas, de economia social, religiosas, educacionais, recreativas entre outras.

Numa sociedade organizacional pode-se identificar o que a teoria estruturalista chama de “homem organizacional” que é aquele que desempenha diferentes papeis em diferentes organizações. O homem organizacional vive em conflito com as organizações na medida em que os seus interesses e os das organizações muitas vezes não coincidem. O homem organizacional é ainda caracterizado por sua capacidade de se adaptar as mudanças que é uma exigência, sobretudo, nos tempos atuais em que a flexibilidade é primordial para os indivíduos já que as mudanças ocorrem em velocidade elevado e é necessário antecipá-las e se adaptar a elas.

O papel das organizações tem extrapolado o de simples instrumento para satisfazer os anseios dos seus membros e da sociedade. Na realidade, à medida que as organizações se desenvolvem decrescem, para os indivíduos, as opções de vida extra organizacional, obrigando-os ao desenvolvimento de diversos mecanismos de adaptação para conviver na chamada “sociedade organizacional”.

Por outro lado, da mesma forma que os indivíduos, as organizações também adoecem.

Ao longo da evolução da sociedade as organizações têm gerado disfunções, mitos, rituais, bem como contribuído para a alienação e outros efeitos desestruturantes sobre os seus participantes. Configura-se assim um processo de deterioração que põe em risco a sobrevivência de muitas delas. Empresas prósperas e lucrativas do passado hoje não existem mais. Quem não se lembra da Kodak, Panam, Arthur Andersen, Enron, Lehman Brothers, Swissair, Virgin Megastore, Blackberry? Outras, que já foram líderes e exemplos de competência gerencial, em seus segmentos de atuação, perderam valor de mercado ou acabaram adquiridas como a Sun Microsystems, Compaq, Kolynos, Napster, SEGA, HP. No Brasil Manchete, Banco Nacional, Unibanco, Itautec, Mappin, Arapuã, G. Aronson, Mesbla, Yopa e Varig já não existem mais. Recentemente a fabricante de eletrodomésticos da linha branca Mabe (Dako, GE, Continental) bem como Luigi Bertolli, Intelig e BCP sucumbiram. Outras encontram-se seriamente enfermas com “poli traumatismo” como Andrade Gutierrez, OAS, Odebrecht, OGX, Oi e JBS.

Todas essas empresas mencionadas, outrora prósperas, adoeceram vítimas das mais diversas patologias. Algumas foram a óbito e outras “respiram por aparelhos” na esperança da cura pela injeção de recursos públicos ou da aquisição por parte de investidores.

Mas o que seria uma patologia em se tratando de empresas?

No presente artigo gostaríamos de propor uma reflexão inicial sem nenhuma pretensão de aprofundar muito menos esgotar a discussão do tema.

Na área médica a patologia é o estudo das alterações estruturais, bioquímicas e funcionais nos órgãos, células e tecidos que objetiva compreender os mecanismos pelos quais surgem os sinais e os sintomas das doenças. A palavra “patologia” significa “estudo da doença”​ e tem origem no grego, onde pathos significa doença e logos significa estudo. No entanto, a palavra “patologia” também é utilizada como sinônimo de doença​.

Por analogia a Patologia Empresarial investiga as disfunções empresariais no modelo de gestão, modelo de negócios, planejamento, organização, direção e controle identificando alternativas de solução e prescrevendo “tratamentos” para as empresas. Utilizando-se de um referencial metodológico robusto identifica sintomas e evidências de que a análise das patologias pode prover alternativas para se evitar a ocorrência de disfunções, buscando assegurar o desenvolvimento sustentável das empresas e a sua perpetuação em condições de competitividade.

Aqui, da mesma forma, o diagnóstico precoce é fundamental para se tentar impedir o agravamento do quadro clínico e dessa forma buscar o restabelecimento do “paciente”.

De maneira semelhante ao corpo humano, as organizações podem apresentar patologias que, se não tratadas a tempo, poderão evoluir comprometendo a saúde das mesmas ou prejudicando o seu desenvolvimento.

Patologia pode ainda ser definida como o estudo da doença tanto com o objetivo de compreender a sua causa como de aplicar esse conhe­cimento na prevenção e no tratamento dos pacientes.

A Patologia Empresarial seria, portanto, de forma sintética, o estudo das enfermidades que acometem as empresas no sentido de identificar causas provendo a profilaxia e o tratamento. Profilaxia representa a adoção de medidas para prevenir ou atenuar doenças.

Nos últimos anos tenho observado muitas organizações públicas e privadas, dos mais diferentes setores, acometidas por disfunções decorrentes de mudanças no ambiente de negócios, de lacunas importantes no modelo de gestão e no modelo de negócios e de decisões estratégicas equivocadas, levando-as muitas vezes ao adoecimento.

A incidência de disfunções, patologias, neuroses e mitos nas empresas reitera a hipótese da existência de uma propriedade das organizações análoga à segunda lei da termodinâmica que afirma que as organizações apresentam uma tendência a se desintegrar como uma decorrência natural de seu funcionamento. Essa característica é chamada de “entropia organizacional” (Kast & Rosenweig, 1970, p. 56; Argyris, 1970, p. 1).

As patologias empresariais têm origem interna ou externa. As de origem externa geralmente são determinadas por mudanças no macroambiente ou no ambiente de negócios. As patologias de causa interna, via de regra, decorrem de modelos de gestão ultrapassados, obsoletos, que não partem de um sistema de liderança, de um processo contínuo de planejamento e desdobramento da estratégia, da falta de foco no cliente, da ausência de harmonia no relacionamento com a sociedade, da gestão descuidada do conhecimento, da falta de atenção aos colaboradores, de uma arquitetura organizacional fundamentalmente vertical e sobretudo disfuncional, da falta de preocupação sistemática com a melhoria nos processos e da não realização de um monitoramento dos resultados periódico, por meio de indicadores, que realimente a estratégia proporcionando a sua reconfiguração.

As patologias de origem interna são causadas também por modelos de negócios que não respeitam princípios, valores, a ética, a responsabilidade social e ambiental. São modelos de negócios não planejados, não desenhados e que, portanto, não refletem uma proposta de valor claramente definida, que não buscam a inovação, o estabelecimento de parcerias duradouras, e a co-criação. Os modelos de negócios inadequados ou inconsistentes não contemplam de forma adequada o ambiente de negócios, as transformações iminentes, a necessária visão holística do micro e do macro ambiente e muito menos a flexibilidade imprescindível para se reconfigurarem, de forma ágil, quando ameaçados pelas mudanças. Sem atividades-chave bem delineadas, sem fontes de receita bem definidas, sem recursos suficientes, sem uma estrutura de custos identificada, sem um segmento/nicho de clientes definido, sem uma estratégia adequada de diferenciação, posicionamento, produto/serviço, preço, distribuição e comunicação. São modelos de negócios que já nascem fadados ao insucesso.

A ênfase exagerada em comportamentos típicos pode também caracterizar uma patologia assim como a falta de criatividade e a resistência à inovação. Ainda que esses fatores não redundem necessariamente em colapso evidenciam sintomas que não podem e não devem ser desconsiderados.

Podem também ser consideradas patologias empresariais além de modelos de gestão e de negócios que não propiciam vantagens competitivas, entre outras, a microcefalia administrativa, a macrocefalia administrativa, a trincheira de assessores, o turnover elevado, o absenteísmo elevado, o nepotismo, o favoritismo, a excessiva centralização, a falta de formalização da arquitetura organizacional, subordinação múltipla (a menos que a organização tenha adotado o modelo de arquitetura matricial) a integração ilógica entre unidades e a excessiva centralização decorrente da falta de empowerment,  empoderamento.

Como pode-se perceber, pela leitura do artigo, qualquer empresa está sujeita a adoecer, das maiores as menores. Para que isso seja evitado é necessário estar atento aos primeiros sintomas que podem ser percebidos por um adequado diagnóstico do modelo de gestão, do modelo de negócios e do monitoramento dos sinais vitais evidenciados pelos indicadores de performance. O diagnóstico empresarial precoce pode ser a diferença entre a recuperação e o óbito. A avaliação dos sinais vitais instrumentaliza a equipe de gestão na tomada de decisões sobre a necessidade de uma eventual intervenção.

 

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