Desenvolvendo um modelo de negócio resiliente diante da pandemia do Covid-19

Em julho de 2018, quando publiquei o DICAS DE GESTÃO a Simbiose Indispensável entre Modelo de Negócio e Estratégia, enfatizei a importância do alinhamento entre o Modelo de Negócio e a Estratégia.

Esse alinhamento se torna ainda mais fundamental face as mudanças no ambiente provocadas pela Covid-19, já que empresas desenhadas para o mundo de antes da pandemia correrão riscos de sobrevivência no mundo pós-Covid-19, se não revisarem o modelo de negócio alinhando-o as estratégias.

Como fica então o modelo de negócio e a estratégia da empresa depois da disruptura provocada pela pandemia do Covid-19?

A premissa subjacente dessa análise é de que a pandemia vai provocar mudanças disruptivas no ambiente de negócios e, portanto, na maneira de se fazer negócio.

A primeira dessas mudanças será quanto ao papel do Estado. Com certeza o Estado terá um papel na economia  muito diferente do que vinha tendo nos últimos anos. Esse papel passará por transformações significativas tanto no Brasil como nos demais países.

Em momentos de crise profunda geralmente emerge a importância do Estado na sociedade e particularmente na economia. Serão as medidas adotadas pelos governos nos diversos níveis e o seu acerto que permitirão a recuperação dos países. Quanto melhores forem as medidas de políticas públicas e os investimentos realizados pelos governos, menos difícil será a recuperação das nações tão fragilizadas pela pandemia. O discurso do “Estado mínimo” tenderá a ser substituído pela constatação da importância de se ter um Estado forte e com recursos não apenas para dar suporte ao cidadão, mas também às empresas que enfrentarão grandes dificuldades.

Para ilustrar a afirmação basta citar que o governo norte-americano aprovou no final de março, um pacote de estímulos a economia de cerca de US$ 2 trilhões para auxiliar trabalhadores, empresas e o sistema de saúde. Os deputados democratas propuseram pacote adicional de auxílios da ordem de US$ 500 bilhões voltados para as pequenas e médias empresas.

A Alemanha, que preza pela austeridade nos gastos públicos, aprovou recentemente um pacote de recursos também significativo para garantir empréstimos às empresas, investimento público e auxílio aos trabalhadores impactados pelo isolamento social.

Mas não é só o Estado que terá que se redesenhar. As empresas também terão que repensar o seu modelo de negócio em função de mudanças no ambiente competitivo e no comportamento dos consumidores.

Acredita-se os consumidores adotarão novos hábitos e comportamentos de compra. À medida que os consumidores se transformam para adotar novos comportamentos e hábitos, eles tendem a valorizar ainda mais às marcas nas quais confiam. Os consumidores estão usando o tempo em casa para desenvolver novas competências e habilidades e essas competências e habilidades não desaparecerão quando a pandemia for controlada.

As empresas estão transformando eventos presenciais em virtuais, o mesmo ocorre com os consumidores que estão se ajustando à digitalização de seus comportamentos. Muitos acreditam que o fato de tantos profissionais estarem trabalhando em casa provoque uma mudança importante nos relacionamentos profissionais, gerando novas formas de trabalho ao que tudo indica mais flexíveis.

O aumentado da proteção da privacidade e dados pessoais continuará sendo uma tendência ainda mais consistente.

O polo econômico mundial se deslocará ainda mais dos EUA, muito afetado pela pandemia, para a China gerando diversas implicações em termos de redes globais de suprimento, novos modelos organizacionais e, naturalmente, modelos de negócio disruptivos.

E como ficam as empresas diante de tantas mudanças?

Quando as notícias do Covid-19 se difundiram as empresas começaram a considerar como isso afetaria o acesso à cadeia de suprimentos, o lançamento de produtos, o bem-estar dos colaboradores e a sobrevivência dos negócios. Todavia muitos não consideraram a importância de desenvolver um modelo de negócio resiliente.

A preocupação com a resiliência do modelo de negócio geralmente não está contemplada nos planos empresariais. As empresas planejam interrupções nos recursos e processos, mas não reconhecem que modelos de negócios obsoletos podem ser uma ameaça à continuidade das operações. A chave, portanto, é assegurar que o modelo de negócio seja resistente a impactos externos.

“As empresas precisam aproveitar uma abordagem sistemática para fortalecer a resiliência de seu modelo de negócio atual para assegurar sua operação contínua durante o Covid-19”, diz Daniel Sun, vice-presidente do Gartner.

A propósito o Gartner em um estudo denominado Create a Resiliente Business Model in the Face of Covid-19, desenvolvido por Kasey Panetta e publicado recentemente, recomenda uma abordagem em cinco fases para assegurar a resiliência do modelo de negócio diante das ameaças representadas pela Covid-19. As cinco fases, ilustradas na Figura 1 são: mapear o modelo de negócio atual, identificar incertezas, avaliar o impacto no negócio, alterar o design e implementar as alterações. Em seguida vamos comentar cada uma das fases conforme o estudo desenvolvido pelo Gartner.

Fase 1 – Mapear o modelo de negócio atual

O estudo sugere que se comece identificando a base principal de clientes essencial, clientes-chave, para os negócios e suas principais necessidades. Em seguida recomenda que essa ideia deva ser ampliada para valorizar proposições, capacidades e modelos financeiros.

Clientes: Quem são os clientes-chave da empresa?

Proposta de valor: O que oferecemos para atender às suas principais necessidades?

Capacidades: Que parceiros do ecossistema são necessários para entregar as proposições de valor?

Modelos financeiros: quais modelos de receita adotamos para os clientes-chave?

Fase 2 – Identificar incertezas

Na segunda fase o estudo recomenda que a empresa reúna um grupo diversificado de colaboradores e procure identificar incertezas com maior probabilidade de serem prejudiciais aos negócios,  ou seja, incertezas com forte impacto nos negócios. Em seguida identifique possíveis rupturas que podem ser provocadas pela disseminação da Covid-19.

Por exemplo, para uma empresa que atue no segmento varejista isso inclui cenários nos quais menos clientes podem entrar na loja devido ao isolamento social, ou onde os clientes evitam ter contato físico com os funcionários durante o pagamento.

Fase 3 – Avaliar o impacto no negócio

Na fase 3 avalie o impacto depois de identificar as incertezas. Considere como cada uma delas impactaria os negócios. A análise de impacto nos negócios é um estudo a parte, separado, fora da resiliência do modelo de negócios e que, segundo o autor, pode ser desenvolvido em seis etapas:

– Desenvolvimento de categorias de impacto;

– Desenvolvimento de prazos de impacto;

– Identificação de impactos cíclicos;

– Definição de escalas de impacto nos negócios;

– Definição de parâmetros de impacto e;

– Identificação e avaliação de risco.

Fase 4 – Alterar o design

Na fase 4 recomenda-se gerenciar os possíveis impactos. Registre todas as alternativas de solução em potencial e avalie-as posteriormente. Analise de que forma soluções de TI podem facilitar essas mudanças. Por exemplo, quando os governos fecham espaços físicos ou as pessoas não estão dispostas a entrar em uma loja física, o impacto potencial é alto. Uma estratégia de mudança se concentraria em mudar a forma como os negócios utilizam o espaço físico.

Na China os varejistas converteram espaços de lojas em armazéns e centros de distribuição. Isso limita o impacto das lojas físicas fechadas e aumenta o armazenamento e as operações do varejo on-line. Para a TI o desafio passa a ser apoiar o incremento das soluções de comércio eletrônico. Estabelecer planos para essas mudanças com antecedência é fundamental para as empresas, considerando que reações rápidas e flexibilidade fazem grande diferença.

Fase 5 – Implementar as alterações

Finalmente as decisões serão tomadas pela liderança sênior, mas as fases 1 a 4 do planejamento  atuarão como insumo essencial para a sua implementação. Depois que essas decisões forem tomadas, concentre-se em uma execução ágil. Assegure-se de que os líderes das unidades de negócios estejam cientes das mudanças e tenham a aprovação final. Isso ajudará a alcançar o alinhamento da estratégia com o modelo de negócios garantindo resultados mais rápidos.

 

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