Singularidade, singularidade tecnológica e singularidade estratégica

Um dos conceitos que considero mais fascinantes na física é o conceito de Singularidade.

Na impossibilidade de prever o futuro muitos cientistas encontraram uma expressão para tentar descrever o que está por vir: “singularidade”.

O termo Singularidade se originou para designar fenômenos tão extremos que as equações não são capazes de descrevê-los. Um exemplo são os buracos negros que são regiões no espaço onde a gravidade suga de uma forma tão intensa que nem mesmo a luz escapa. Em outras palavras buraco negro é uma região do espaço que possui uma quantidade tão grande de massa concentrada que nada consegue escapar da atração de sua força de gravidade, nem mesmo a luz, e é por isso que recebem essa denominação.

Os físicos denominam de singularidade o núcleo de um buraco negro, onde a curvatura do espaço-tempo atinge valores extremos, algo que as equações da física não contemplam.

Em uma abordagem mais abrangente e uma perspectiva mais ampla pode-se dizer que a Singularidade representa o que está além da nossa capacidade de cognição e previsibilidade.

O conceito se desenvolveu na década de 50, com a contribuição do matemático húngaro John von Neumann, que afirmou que as tecnologias poderiam chegar a um ponto além do qual “os assuntos humanos, da forma como os conhecemos, não poderiam continuar a existir”. A idéia subjacente ao conceito de singularidade é a de que tecnologias de várias áreas evoluem de forma cada vez mais rápida e disruptiva se integrando e transformando rapidamente a realidade.

Para Grossman (2011), a ideia de singularidade tecnológica surgiu do matemático britânico I.J. Good, quando identificou e descreveu a possibilidade de uma explosão da inteligência. Para Good (1965), quando alcançássemos uma máquina ultrainteligente, a própria máquina poderia superar os seres humanos mais inteligentes.

Mas não é só na computação que os especialistas observam esse fenômeno. A nanotecnologia, a genética e a robótica têm evoluído em ritmo semelhante, fornecendo umas às outras metodologias para avançarem ainda mais.

Onde isso vai nos levar? Onde poderemos chegar?

“Por causa da taxa explosiva de desenvolvimento, o crescimento tecnológico no século 21 será equivalente a 20 mil anos de progresso na velocidade atual”, diz o inventor e empresário Ray Kurzweil, autor do livro The Singularity is Near (“A Singularidade Está Próxima”), lançado nos Estados Unidos.

Outro a constatar a Singularidade foi o engenheiro Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, que formulou a chamada Lei de Moore segundo a qual o número de transistores em um mesmo espaço (e consequentemente a capacidade de processamento dos circuitos integrados) dobra a cada 18 meses. Mas considerando que a Lei de Moore influencia a evolução dos transistores, será que esse padrão de evolução também impactaria as tecnologias baseadas na informação?

Na década de 80, Ray Kurzweil provou que sim. O estudo conduzido pelo cientista identificou que as invenções baseadas nas tecnologias atuais estariam ultrapassadas no momento em que chegassem ao mercado.

Singularidade tecnológica seria, portanto, uma hipótese que relaciona, entre outros, o desenvolvimento tecnológico explosivo da super inteligência artificial a mudanças irreversíveis ​​que a mesma acarretará na espécie humana. Singularidade tecnológica seria um possível momento no futuro da humanidade onde mudanças disruptivas ocorreriam como decorrência do surgimento de uma nova tecnologia ou do aprimoramento de alguma tecnologia já existente.

Todavia não há consenso entre os especialistas a respeito da maneira como a singularidade se desenvolverá. Pode-se identificar três perspectivas para a ocorrência da singularidade segundo Yudkowsky (2007).

  • Transformação Acelerada: segundo Kurzweil as mudanças futuras se darão a uma velocidade maior do que vem ocorrendo atualmente, da mesma forma como as de hoje acontecem em relação ao passado. Estas mudanças seguiriam uma função exponencial, e se retroalimentariam gerando novas mudanças.
  • Horizonte de Eventos: de acordo com Vinge haverá um momento no futuro onde uma superinteligência irá surgir, e a partir deste instante não poderemos mais prever coisa alguma pois, para isto, teríamos de ser superinteligentes também.
  • Explosão de Inteligência: para Yudkowsky a inteligência é a fonte criadora de todas as tecnologias. A tecnologia pode desenvolver inteligências superiores as humanas, então assim fecha-se o ciclo e um feedback positivo se estabelece. Estas alterações ocorrem, não necessariamente seguindo um incremento exponencial até alcançar um ponto crítico, criando assim uma superinteligência.

As perspectivas de Kurzweil, Vinge e Yudkowsky estão representadas na Figura 1.

Ainda não se sabe que evento poderá desencadear essa revolução nem como ela irá ocorrer, mas alguns cenários estão sendo estudados. Por enquanto tudo isso ainda é teoria. Alguns céticos sequer acreditam que isso venha a ocorrer. Para eles a ciência pode identificar barreiras tecnológicas intransponíveis, e que a humanidade não consiga ir muito além de máquinas mais ligeiras, que não exista demanda para computadores mais avançados ou que todas essas pesquisas não nos levem a lugar algum. Qualquer que seja a alternativa, a única certeza é que a humanidade terminará este século muito diferente de como começou.

David Chalmers (2011) em artigo publicado no Journal of Consciousness Studies já defendia que a equiparação do poder computacional das máquinas com o do cérebro humano estaria próxima.

E você leitor o que acha? Será que em algum momento os seres humanos serão dominados pelas máquinas? Nesse contexto como ficariam as empresas, seus modelos de negócios e suas estratégias? Em que medida os efeitos da hipótese da singularidade poderiam ser aplicados aos modelos de negócios e as estratégias das empresas em particular a inteligência artificial (IA) e o aprendizado de máquina (AM)?

No artigo The business of artificial intelligence publicado pela Harvard Business Review, Erik Brynjolfsson e Andrew Mcafee, professores do MIT, examinam os efeitos da tecnologia da informação e da inteligência artificial na estratégia de negócios, na produtividade, na performance, no comércio eletrônico e nos ativos intangíveis e recomendam que as empresas invistam na inteligência artificial.

De acordo com os autores a tecnologia mais importante da nossa era e que vai provocar mais impactos nos modelos de negócio e nas estratégias das empresas é a inteligência artificial (IA) em particular o aprendizado de máquina (AM) que é a capacidade da máquina continuar aprimorando o próprio desempenho sem que os seres humanos necessitem explicar as tarefas atribuídas a ela. Segundo Brynjolfsson e Mcafee os maiores avanços da IA ocorreram na percepção, na cognição e na solução de problemas.

Isso propicia avanços importantes que podem ser utilizados pelas empresas nos seus modelos de negócios e estratégias como o reconhecimento de voz, reconhecimento de imagem, sistemas de  visão, automatização dos processos de reclamação de clientes, orientação para melhoria do atendimento a clientes, melhoraria no desempenho de vendedores a partir da previsão das respostas que vendedores bem sucedidos dariam, recomendação de produtos aos clientes, melhoria da disposição de anúncios online, melhoraria no processo de busca de lojas, reconhecimento de emoções como alegria surpresa e raiva em focus groups (o Focus Group ou Grupo Focal é uma técnica utilizada em pesquisas qualitativas de marketing para entre outras finalidades conhecer os consumidores, planejar o desenvolvimento de um novo produto ou serviço e etc.) e escanear imagens para auxiliar no diagnóstico de doenças.

Na indústria a IA e o AM podem ser utilizados para otimização de estoques, redesenho de processos, redesenho do fluxo de trabalho, adequações do layout nas fábricas e nos centros de distribuição, projeto, desenvolvimento e fabricação de novos produtos e processos

A IA e o AM dificilmente substituirão o modelo de negócios, a estratégia, ou os processos de forma completa, mas complementam as atividades humanas agregando valor ao negócio.

Mas o que seria então a Singularidade Estratégica?

A singularidade estratégica seria a capacidade das empresas de integrar as tecnologias emergentes com as pessoas com o intuito de gerar inovação disruptiva nos seus modelos de governança, de gestão, de negócios, nos seus objetivos, nas suas estratégias e consequentemente nos seus processos de negócio.

As dimensões da singularidade estratégica podem ser observadas na Figura 2.

As empresas que desenvolverem de forma mais adequada negócios e estratégias que propiciem integração e equilíbrio do trabalho envolvendo homem e máquina de forma harmônica, integrando de forma eficiente suas capacidades, alavancarão competências que proporcionarão vantagens competitivas em relação aos concorrentes que não conseguirem essa integração. Isso demandará das empresas e de seus executivos novas habilidades e capacidade de adaptação.

Voltando ao artigo da HBR os autores afirmam que “a IA não substituirá os gestores, mas os gestores que adotarem a IA substituirão os que não o fizerem.”

2 comentários sobre “Singularidade, singularidade tecnológica e singularidade estratégica

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