A simulação empresarial no ensino da Engenharia de Produção

O ensino no Brasil e no mundo, como regra, ainda se baseia fundamentalmente em um sistema herdado que coloca a formação diante de um dilema devido à incompatibilidade do sistema tradicional (quadro x giz ou datashow) com as profundas transformações no mundo em particular no mundo das empresas e dos negócios.

Para formar profissionais preparados para o mundo contemporâneo dinâmico, VUCA/VICA como vem sendo chamado; volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, o ambiente empresarial e a era da indústria 4.0 as instituições de ensino superior precisam adequar seus projetos pedagógicos e práticas de ensino à atual realidade, buscando novas metodologias de ensino ativas que consigam integrar teoria e teoria aplicada, não me agrada a falsa dicotomia teoria versus prática, proporcionando aos estudantes uma visão integrada da sua profissão e os desafios a ela inerentes.

Neste contexto, a Simulação Empresarial também denominada Jogos de Negócios, Business Simulation, constitui-se em uma proposta alternativa, na medida em que não deixa de considerar as várias linhas de pensamentos e teorias pedagógicas, mas contempla os aspectos dinâmicos da sociedade contemporânea, do ambiente e do mercado. Esta metodologia facilita o processo de ensino-aprendizado por intermédio da simulação de decisões, possibilitando a oportunidade de conhecimento vivencial aos futuros profissionais de engenharia que estão sendo desenvolvidos e formados.

Simulação Empresarial, como disciplina, está associada, portanto, às novas metodologias de ensino e uso das NTIC, novas tecnologias de informação e comunicação. De acordo com os objetivos propostos, a partir de empresas virtuais, os estudantes identificam necessidades de informação, investigam em equipe, sempre coordenados e orientados pelo professor, e decidem e implementam soluções adequadas ao desenvolvimento de empresas durante as aulas.

No desenvolvimento da disciplina de Simulação Empresarial na graduação em Engenharia de Produção da UnB, Engenharia Industrial, o software de simulação utilizado é o da Tino Empresarial, voltado à simulação de empresas do setor industrial. No SIND, como é chamado, as empresas devem produzir e vender bens de consumo duráveis. O simulador industrial reproduz condições estratégicas e operacionais das principais áreas funcionais de uma indústria, como gestão da produção, gestão financeira, vendas e recursos humanos.

Para a realização da Simulação Empresarial a turma é dividida em 8 (oito) equipes. Cada equipe, em uma estação de trabalho na imagem, é responsável por uma empresa simulada. Todas fabricam o mesmo produto e concorrem, no caso em estudo, geladeiras.

Os participantes são alocados nas áreas funcionais em cada empresa: comercial, produção, recursos humanos e financeira e nos seguintes cargos: diretor administrativo-financeiro, diretor industrial, gerente comercial, gerente de recursos humanos, gerente de produção, gerente financeiro e analista de marketing.

Antes do início da simulação realiza-se uma breve explanação dos professores sobre o produto a ser fabricado, suas características, caraterística das empresas, áreas, cargos bem como as variáveis objeto das decisões durante a Simulação. A condução da simulação fica a cargo dos professores na função de Coordenadores da simulação.

Em seguida ocorre a distribuição dos relatórios empresariais e de um jornal com informações sobre mercado e economia a cada um dos participantes editado pelos Coordenadores da simulação. O Relatório Contábil com informações confidenciais relativas ao fluxo de caixa, limite de empréstimos para o próximo período, resultado econômico (custo do produto e DRE, Demonstração de Resultado do Exercício) e balanço patrimonial para o período simulado. O Relatório Operacional com informações igualmente confidenciais relativas a estoque, máquinas, recursos humanos, dados de mercado, conjuntura econômica e decisões tomadas pela empresa para o período simulado. O Jornal a Gazeta com os preços de todos os fornecedores para o período, Taxa Básica de Juros (TJB), taxa de juros dos fornecedores, estimativa de importação de produtos, percentual de prejuízo ou lucro na venda de máquinas usadas bem como as demais informações macroeconômicas necessárias para a tomada das decisões. Algumas notícias importantes do período imediatamente anterior também são publicadas no Jornal.

A gestão comercial é responsável pelas decisões relativas: aos compradores, demanda, preço de venda, prazo de venda, propaganda, sazonalidade, crescimento do macro setor, importação de produtos e formas de comercialização. A gestão da produção é responsável pelas decisões relativas à: programação da produção, tipos de máquinas, compra e venda de máquinas, compra de matérias primas, sistema de custeio, gastos com estocagem e depreciação. A gestão de recursos humanos se envolve com decisões relativas à: contratação, demissão, remuneração, treinamento e produtividade. A gestão financeira fica responsável pelas decisões relativas a empréstimos, financiamento, antecipação de recebíveis, aplicações no mercado financeiro de excedentes de caixa, imposto de renda e atrasos e suas repercussões nono fluxo de caixa das respectivas empresas.

As decisões se dão a partir de 16 variáveis: preço a ser cobrado pelo produto, condições para o pagamento: a vista ou em uma e mais uma, investimento da empresa em marketing e propaganda, compra de matéria-prima, condições de pagamento da matéria-prima, nível de atividade, produção extra, compra e venda de máquinas de três tipos, número de empregados admitidos, número de empregados demitidos, salário pago aos empregados, investimento em treinamento, empréstimo solicitado, antecipação de recebíveis, aplicação no mercado financeiro e juros na venda a prazo.

Ao longo das rodadas o desempenho de cada empresa pode ser monitorado por meio dos indicadores: endividamento, capital circulante líquido, margem de lucro, participação de mercado, patrimônio líquido e rentabilidade do ativo. A classificação das empresas obedece ao desempenho do indicador patrimônio líquido.

Conceitualmente falando, o Patrimônio Líquido é a representação da riqueza efetiva da empresa. Nesse indicador, são reunidas informações como o valor que foi investido no negócio, os lucros que foram gerados e estão aguardando a distribuição entre os sócios/acionistas, ações em tesouraria e reservas de valores. O PL é calculado por meio dos lançamentos contábeis originados da operação da empresa. A cada aporte de valores no seu negócio, por exemplo, há um acréscimo no capital social, que é uma das contas que compõem o patrimônio líquido. O patrimônio líquido pode ser calculado pela diferença entre o ativo total e o passivo exigível.

A simulação ocorre ao longo de 8 (oito) rodadas simulando 8(oito) trimestres, 2 (dois) anos, no final das quais se apura a empresa com melhor desempenho em termos de patrimônio líquido.

Colocados no lugar de executivos de empresas os discentes são expostos a diversas informações de mercado e demandados a tomar decisões de alocação de recursos a partir destas informações.

A partir das decisões, a cada rodada, os estudantes observavam suas respectivas empresas aumentarem ou reduzirem o seu patrimônio líquido que é, como já mencionado, o indicador utilizado para “ranquear” as empresas. A análise das decisões tomadas vis a vis os resultados alcançados evidenciados nos indicadores de performance possibilita aos participantes, a cada nova rodada, rever suas decisões anteriores não sem antes debater as informações e decisões com os demais “membros da diretoria” das empresas. Desta forma é estimulada a tomada de decisões colegiadas.

Fica evidente, pelo acompanhamento da simulação, que os alunos são levados a analisar muitas informações de mercado de forma compartilhada com os demais membros da equipe/diretoria da empresa por ocasião das reuniões de diretoria, argumentar, discutir e posteriormente tomar decisões, implementá-las e naturalmente correr os riscos inerentes a cada decisão.

A aplicação da simulação em turmas de graduação em Engenharia de Produção evidencia o importante papel da Simulação Empresarial no desenvolvimento sobretudo do terceiro componente do CHA (conhecimento-habilidade-atitude), a atitude preparando os estudantes para exercer papéis de liderança nas organizações nas quais venham a atuar.

 

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