O papel da média gerência no desdobramento e execução da estratégia

De acordo com a emblemática matéria de capa da Revista Fortune publicada em 1999 e que despertou muito debate desde então, nove em cada dez organizações não conseguem implementar seu plano estratégico. Entre as principais razões estão: 60% das organizações não vinculam a estratégia ao orçamento, 75% das organizações não vinculam os incentivos aos funcionários com a estratégia, 86% dos empresários e gerentes dedicam pouco tempo a discussão da estratégia e 95% da força de trabalho não entende a estratégia.

Desde então diversos artigos foram escritos analisando as causas de falhas na implementação do planejamento estratégico e consequentemente da estratégia. Inúmeros fatores foram identificados entre eles: objetivos distantes da realidade, ausência de um plano de gerenciamento da estratégia, falta de engajamento dos colaboradores, falha na comunicação, as pessoas não entendem o que deve ser feito, resistência à mudança, falta de prioridade entre outros.

No entanto pouco se falou sobre a importância e o papel que cabe a média gerência em se tratando de assegurar o êxito do planejamento estratégico. Quando o assunto é estratégia a maioria dos estudos abordam o papel do CEO, da direção e da alta gerência negligenciando a importância da média gerência sobretudo na execução estratégica.

Por esse motivo vamos analisar mais detidamente o papel desempenhado pela gerência intermediária no desdobramento e implementação da estratégia, para tentar compreender a contribuição desse importante segmento organizacional no sucesso ou fracasso da estratégia. Adotou-se como ponto de partida o excelente artigo “Por que a estratégia depende da média gerência?” publicado pelo Professor Samir Lótfi do Núcleo de Estratégia e Negócios Internacionais da Fundação Dom Cabral.

No artigo o Autor apresenta 5 explicações para a estratégia depender tanto da média gerência, ao analisando formas de estimular a atuação estratégica destes gerentes.

  • A média gerência direciona o intraempreendedorismo: o orçamento e os investimentos nas empresas sofrem impacto da média gerência. Esses gestores identificam oportunidades e estabelecem as propostas que maximizam as chances de sua aceitação pela Direção, pois, segundo o autor, conhecem os critérios de avaliação.
  • A média gerência pode sabotar a implementação: motivações pessoais da média gerência podem determinar suas intervenções de duas maneiras na estratégia: tomando partido em relação às alternativas analisadas, ou resistindo às decisões que foram tomadas.
  • A média gerência é determinante para o desempenho da empresa: a média gerência pode evidenciar envolvimento na estratégia de diversas formas: sintetizando informações, interpretando, avaliando e transmitindo a alta administração acontecimentos internos e externos à empresa e que possuem impacto sobre a estratégia.
  • A média gerência vende ideias para as pessoas: a média gerência se envolve na estratégia por meio de uma dinâmica de venda de ideias: persuadindo e chamando a atenção das pessoas para a compreensão de eventos, desenvolvimentos e tendências que podem impactar o futuro da empresa.
  • A média gerência atribui significados e lida com emoções relacionadas à estratégia: isso ocorre porque esses gerentes intermediários equilibram as emoções durante mudanças importantes vivenciadas pelas organizações, seja acolhendo as demandas por continuidade das pessoas, ou evidenciando comprometimento com iniciativas individuais, ajudando, dessa forma, na adaptação das equipes.

Como pode-se observar o Professor Lótfi desenvolveu uma análise abrangente que ilustra o papel da média gerência na elaboração da estratégia identificando cinco dimensões importantes dessa influência.

Antes de tecer minhas considerações sobre o papel da média gerência também chamada de gerência intermediária, na implementação e desdobramento do planejamento estratégico gostaria de estabelecer um acordo semântico com o leitor sobre o que seria a média gerência.

Inicialmente pode-se dizer que a média gerência consiste no nível hierárquico intermediário em uma organização que alinha a alta gerência com as equipes de execução. Contempla uma variedade de títulos, cargos e papéis, mas compartilham atribuições comuns. São geralmente gerentes dos níveis subalternos (no sentido exato da palavra), supervidores e coordenadores.

A responsabilidade fundamental dos gerentes de nível médio é manter a organização operando e gerando resultados para que os integrantes da diretoria e da gerência sênior (alta gerência) possam se concentrar em tomar decisões relativas a visão de futuro, objetivos, estratégias e orçamento.

No que se refere a estratégia o papel da gerência intermediária é de interface na relação entre cúpula e operação, o meio do caminho entre as definições estratégicas e sua execução pelas equipes. Por ter uma proximidade maior com a realidade da operação a média gerência é fundamental na manutenção do alinhamento entre estratégia e processos. Ainda que falte uma visão externa mais abrangente, e a Diretoria tem justamente o papel de trazer isso para o processo, a média gerencia compreende melhor os processos e procedimentos. A ponte entre as grandes metas e diretrizes estratégicas da organização e o ambiente externo – clientes, fornecedores etc., compete a média gerência.

Retornando ao papel a ser desempenhado pela média gerencia no desdobramento da estratégia para que ela tenha êxito, com base na observação do trabalho desenvolvido por esse segmento em diversas empresas médias e grandes onde atuei e utilizando como modelo o trabalho dos Papéis Gerenciais de Mintzberg, pode-se dizer que a média gerência no desdobramento e execução da estratégia desempenha 3 naturezas de papeis: interpessoais, informacionais e de decisão conforme pode-se observar na Figura 1.

Eu diria que o papel da gerencia intermediária começa no momento em que o gestor intermediário (média gerência) toma conhecimento do que foi estabelecido no planejamento estratégico da empresa, papel informacional. Cabe a ele se inteirar e naturalmente interpretar o que foi estabelecido pela Diretoria. Um equívoco de interpretação pode comprometer a sua atuação de maneira significativa.

Uma vez compreendida a estratégia e o que a empresa espera dela, em termos de resultado, compete a média gerência se comprometer com as iniciativas estabelecidas para o alcance dos resultados. É o que eu geralmente chamo de Disciplina Estratégica, que algumas vezes falta ao gestor brasileiro até por uma questão cultural. Para ilustrar a importância dessa “disciplina estratégica” frequentemente menciono a disciplina e o comprometimento evidenciados, sem entrar no mérito do certo ou errado, por soldados alemães e japoneses na Segunda Grande Guerra. Os soldados soviéticos, norte-americanos e ingleses sentiram de perto a determinação de um soldado japonês ou germânico em defender uma posição no campo de batalha. A rendição era rara. Ordens dos superiores eram seguidas com uma determinação assombrosa e não raras vezes com sacrifício da própria vida.

Em seguida cabe ao gestor médio disseminar pelos demais níveis organizacionais, encarregados, analistas e demais colaboradores, papel informacional, as diretrizes estabelecidas verificando se foram compreendidas. Sempre destacando a importância da execução estratégica para os resultados da organização. Tenho observado que em muitas empresas a divulgação da estratégia é realizada sem, no entanto, verificar se o que foi transmitido foi de fato compreendido. Se o receptor, também chamado de ouvinte ou interlocutor, não compreende à mensagem não há comunicação. Portanto, a comunicação somente será efetivada se o receptor decodificar a mensagem transmitida pelo emissor.

Outro papel fundamental que deve ser desempenhado pela média gerência é orientar e motivar as equipes, papel interpessoal, na elaboração dos planos de ação a partir das iniciativas estratégicas estabelecidas no planejamento estratégico. Elaborados os planos de ação o papel do gestor médio é acompanhar a sua atualização e implementação.

Cabe também a média gerência apurar os resultados das ações implementadas bem como alimentar os indicadores de desempenho que vão evidenciar os resultados alcançados, papel informacional. Dessa forma a média gerência estará auxiliando os gerentes do primeiro nível a preparar as reuniões de análise crítica do desempenho, RACs ou AGMs.

Compete ainda a média gerência, no papel de decisão, assegurar que os processos de trabalho sejam redesenhados de maneira que passem a “rodar” alinhados com as estratégias identificando oportunidades para eventuais alterações nas atividades e procedimentos. De nada adianta realinhar a estratégia e continuar fazendo tudo como antes.

Finalizando gostaríamos de reiterar que os indivíduos da média gerência são atores-chave para o êxito da execução estratégica. Sua proximidade com à chamada linha de frente e sua posição intermediária na hierarquia fazem com que eles tenham percepção sobre alternativas estratégicas que demandam maior atenção. O papel da média gerência na implementação da estratégia é, portanto, fundamental, dada a sua capacidade de influenciar de cima para baixo, interpretando e traduzindo a estratégia e de baixo para cima, defendendo alternativas e sintetizando informações.

Com todas esses papéis e atribuições sendo bem realizados o gerente intermediário já estará apto a colocar a capa e sair voando.

Até o próximo DICAS DE GESTÃO!

 

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