A vantagem competitiva das nações e as desvantagens do Brasil

Recentemente estava lendo o relatório “Competitividade Brasil 2019-2020” da CNI, Confederação Nacional da Indústria, que indica que o Brasil nos últimos anos vem se mantendo como penúltimo em competitividade entre 18 países com economias semelhantes. Segundo a última edição do estudo, publicada em julho, o Brasil continua na parte de baixo do ranking. O relatório compara o Brasil com a África do Sul, Argentina, Austrália, Canadá, Chile, China, Colômbia, Coreia do Sul, Espanha, Índia, Indonésia, México, Peru, Polônia, Rússia, Tailândia e Turquia.

Na classificação geral o Brasil aparece em 17º lugar, à frente apenas da Argentina. Os países mais competitivos, segundo menciona o estudo, são Coreia do Sul, Canadá e Austrália.

Nove fatores são considerados para a realização da comparação: ambiente macroeconômico, ambiente de negócios, educação, estrutura produtiva, escala e concorrência, financiamento, infraestrutura e logística, tecnologia e inovação, trabalho e tributação.

Ao tomar conhecimento do resultado ruim do país em mais um ranking de competitividade, o Brasil aparece mal colocado em todos os rankings semelhantes, imediatamente lembrei do artigo The Competitive Advantage of Nations publicado em 1990 na Harvard Business Review por Michael E. Porter. Nele o autor faz algumas considerações importantes que ensejam a nossa reflexão.

Porter começa o artigo afirmando que “a prosperidade nacional é criada, e não herdada. Ela não nasce dos pendores naturais de uma nação, de sua força de trabalho, de suas taxas de juros, ou do valor de sua moeda, como insistem em dizer os economistas clássicos.” Mais adiante ele acrescenta “a competitividade de uma nação depende da capacidade de seus setores industriais para inovar e modernizar. As empresas ganham vantagem contra os melhores concorrentes do mundo devido a pressões e desafios. Elas se beneficiam de fortes rivais domésticos, fornecedores agressivos e clientes locais exigentes.” Em seguida o autor fala em quatro atributos amplos que, segundo ele, um país deve possuir para ter vantagem competitiva.

O atributo Condições de Fatores contempla a posição do país em relação aos fatores de produção como infraestrutura e especialização do trabalho, fundamentais a competição.

O atributo Condições de Demanda considera a natureza da demanda interna para os produtos e serviços. Consumidores mais exigentes exercem naturalmente pressão para que as empresas melhorem a sua capacidade de competir por meio da inovação e excelência.

O atributo Indústrias Correlatas e de Apoio aborda a existência no país de indústrias abastecedoras e indústrias correlatas que sejam globalmente competitivas. A proximidade entre essas indústrias possibilita o compartilhamento de conhecimentos e, naturalmente, o intercâmbio de experiências.

Finalmente o atributo Estratégia, Estrutura e Rivalidade entre Empresas reúne as condições que determinam, no país, a forma pela qual as empresas são estabelecidas, estruturadas e gerenciadas. Dessa maneira, os países obtêm sucesso em determinados setores porque o ambiente interno pressiona as empresas para que desenvolvam e ampliem suas vantagens.

Analisando a realidade do Brasil em relação a cada um desses quatro atributos percebe-se de cara que no atributo condições de fatores o nosso desempenho é pífio. O investimento em infraestrutura, em boa parte público e, quando é privado com dinheiro público do BNDES, Banco do Brasil e Caixa, representa atualmente cerca de 1,87% do PIB, ou seja, de R$ 133 bilhões quando seriam necessários, segundo os especialistas, algo em torno de R$ 300 bilhões, 4,15% do PIB para manter adequadamente e modernizar a infraestrutura brasileira. Em relação a especialização no trabalho o Brasil passa por uma séria crise. Faltam profissionais especializados com capacidade para preencher vagas abertas em diversos setores. Um estudo desenvolvido pela empresa Korn Ferry, no fim de 2019, evidencia o problema. O levantamento realizado com empresários brasileiros indica um déficit de 1,8 milhão de pessoas para vagas mais especializadas – considerando tanto as vagas disponíveis como as que serão ocupadas por empregados sem a qualificação necessária. A origem desse problema está na formação, na educação básica, tão negligenciada no País.

No atributo condições de demanda que como mencionado considera a natureza da demanda interna para os produtos e serviços das empresas, já que consumidores mais exigentes exercem naturalmente uma pressão para que as empresas melhorem a sua capacidade de competir por meio da inovação e excelência nos produtos e serviços, outro problema. Com um salário mínimo mensal de cerca de US$ 190 dólares e um salário médio de cerca de US$ 400 dólares fica difícil o Brasil ter um mercado interno que gere demanda para os produtos aqui fabricados. Temos uma grande população mas quando falamos em consumidores esse número se reduz drasticamente. O consumo no Brasil é limitado a um pequeno grupo de “privilegiados”. O Brasil tem a segunda pior concentração de renda do mundo. O 1% mais rico concentra 28,3% da renda total do país. Perdemos apenas para o Catar em desigualdade de renda, onde 1% mais rico concentra 29% da renda. Com salários maiores poderíamos tirar proveito do mercado interno aumentando a escala da nossa indústria que assim se tornaria mais competitiva.

No atributo indústrias correlatas e de apoio que analisa a existência no país de indústrias abastecedoras e indústrias correlatas que sejam globalmente competitivas, o Brasil fica atrás novamente. A participação do Brasil nas cadeias de valor globais, com poucas exceções, se dá mais como fornecedor de insumos para empresas de outras origens adicionarem valor na cadeia produtiva e menos como exportador de produtos com maior valor agregado “Estudos recentes demonstram que os ganhos do comércio relacionados com as cadeias globais de valor continuam se concentrando nas principais potências econômicas, associados a estágios mais avançados da produção – como P&D e design, ou transporte, marketing e atendimento pós-venda.” (Reis e Almeida, 2014).

A participação do Brasil nas cadeias globais de valor é baixa considerando ao seu tamanho, o baixo conteúdo estrangeiro incorporado nas nossas exportações e a natureza do que é exportado fundamentalmente produtos primários de baixo valor agregado.

Por último no atributo estratégia, estrutura e rivalidade entre as empresas a situação brasileira é novamente frágil. Não temos um ambiente interno que pressione as empresas para que se desenvolvam e ampliem suas vantagens. A produtividade brasileira é baixa, entre outros fatores, devido à baixa competição entre as empresas. Apenas dez grandes companhias – entre elas Unilever, Nestlé, Procter & Gamble, Kraft e Coca-Cola – controlam de 60% a 70% das compras de uma família e tornam o Brasil um dos países com menor concorrência entre empresas no mundo. É o que eu chamo de “capitalismo sem concorrência”.

Outro ponto que pode-se mencionar é a inovação.

Considerando os segmentos de alta intensidade tecnológica os países da OCDE investem em P&D 24% do valor adicionado bruto em equipamentos de informática, eletrônicos e óticos, enquanto no Brasil essa fatia é de apenas 10%. O ano de 2016 assinalou o encerramento e a reversão de um ciclo favorável, que durou quatro anos consecutivos, em que os investimentos do Brasil em pesquisa e desenvolvimento cresceram de forma regular e consistente. O dispêndio em P&D naquele ano alcançou 1,27% do PIB, inferior ao 1,34% obtido em 2015, um recorde histórico. Em valores corrigidos pela inflação em 2016, a queda foi de 9% – de R$ 87,1 bilhões para R$ 79,2 bilhões de um ano para o outro.

Outro problema é a concentração dos investimentos em P&D no setor público brasileiro. Enquanto a iniciativa privada brasileira investe 0,55% do PIB em pesquisa e inovação as empresas privadas coreanas investem cerca de 2,70% e da China Comunista investem cerca de 1,20%.

No Brasil a maior parte (60%) do investimento em P&D é feita pelo Estado por meio das universidades públicas, autarquias e institutos de pesquisa. No grupo dos países mais ricos, cerca de 75% dos investimentos têm origem no setor privado. Os países da OCDE respondem por cerca de 80% da pesquisa e desenvolvimento no mundo. Ou seja, precisamos privatizar parte do investimento em C&T.

Como pode-se depreender da análise desses dados, os que acreditam e defendem que a precarização do trabalho e o fim da aposentadoria digna vão tornar o Brasil mais competitivo estão completamente equivocados.

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